Gênesis: um convite ao retorno

“De quem é o olhar
que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo
quem continua vendo
enquanto estou pensando?”
(Fernando Pessoa)

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“Cada pessoa é um olhar lançado no mundo e um objeto visível ao olhar do mundo”. Leyla Perrone-Moisés começa seu artigo sobre os heterônimos de Fernando Pessoa com esta bela síntese do olhar: somos olhares. No arboreto do Jardim Botânico, diante da primeira imagem da exposição Gênesis de Sebastião Salgado, essa fala me veio à mente, juntamente com um encantamento que seja talvez complexo em sua explicação.

David Griffin, diretor da National Geographic, em uma palestra no TED  em 2008, ao argumentar como a fotografia nos conecta, comenta sobre como a narratividade é crucial na construção da imagem. TED é uma organização sem fins lucrativos que visa trazer a público ideias que merecem ser espalhadas, divulgadas. A palavra TED é a abreviação das palavras em inglês Technologhy, Entertainement e Desing, que são os focos majoritários das palestras.  A palestra de Griffin intitulada How Photography connects us (legendas estão disponíveis) começa mostrando algumas das mais famosas imagens veiculadas pela National Greographic e demonstra a partir delas como a fotografia nos conecta ao desvelar uma narrativa.

A fotografia é uma forma de contar histórias. A habilidade de quem se propõe a esse exercício – o fotógrafo – passa também pelo refinamento do olhar, pela capacidade de transformar em narrativa inteligível a outros aquilo que só ele pode ver, coletivizando a singularidade de seu olhar. Gênesis é antes de tudo uma bela história. Beleza que está presente nos detalhes técnicos de suas fotos, mas que também se revela para nós através das minudências que ele escolheu publicizar, beleza também do estranhamento e da distância a qual aquelas imagens nos remetem: lugares longínquos, povos muito diferentes e a certeza de que somos um mundo diverso, que deve dar espaço e voz para essa multiplicidade de modos de ver e viver.

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A primeira vez que ouvi falar sobre o famoso fotógrafo brasileiro foi no ensino médio, quando minha professora de literatura, sempre muito preocupada em nos mostrar a desigualdade social, comentou sobre um tal de Sebastião Salgado que, ao fotografar, comunicava essa profunda disparidade, ainda que só mostrasse os pés de seus retratados. Guardei a informação, mas nada significou naquele momento.  Quando fui estudar fotografia, Salgado parecia um ser mitológico, uma entidade talvez, que pairava nos discursos dos professores, sobretudo quando se falava de fotos em preto e branco.

picSalgadoSiberia11-1-267w1050fNenhum daqueles discursos, no entanto, trouxe-o para perto, e ele mantinha-se distante do meu olhar.  Por ocasião do lançamento de sua exposição em Londres, houve uma enorme movimentação em livrarias cariocas, que deslocaram os livros de Sebastião Salgado para a entrada em enormes mesas. Foi assim que nos reencontrarmos, o meu olhar e o de Salgado, em uma Livraria no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Mineiro, economista de formação, Sebastião Salgado nasceu em 1944 e estudou no Brasil até pouco depois do golpe civil-militar, em 1964, quando se exilou na França devido à forte repressão do governo. Somente em 1970 começou a fotografar, e três anos depois passou a fazer apenas isso, deixando de lado a carreira de economista.

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Uma visão panorâmica do conjunto de sua obra nos mostra um pouco do tipo de história pelo qual tem predileção: entre excluídos e silenciados, em muitos momentos ele escolheu contar a história da dor de outros. Essa opção lhe rendeu acusações diversas como a de que seu lucro se dava com o sofrimento de outrem. Todavia, ao contar a história de como começou o projeto Gênesis, ele se reporta a como o sofrimento alheio se tornou parte dele de modo tão violento, que isso afetou todas as áreas de sua vida, até mesmo sua saúde. Fez, portanto, um caminho de volta, como ele conta em palestra no TED. De volta ao Brasil se deparou com o desmatamento radical da área onde nascera em Minas Gerais e começou um projeto de reflorestamento através do Instituto Terra, fundado por ele e sua esposa. Gênesis é um convite a um caminho de volta.

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Deslocando o foco de sua preocupação, mas nem tanto, trouxe para perto de outros olhos um diferente tipo de excluído. O planeta Terra, personagem principal de suas fotos, tem sido constantemente abandonado nas ações coletivas da humanidade: esse é um dos mais fortes argumentos de sua exposição. Neste sentido também, seu projeto é um convite ao caminho de volta. Durante oito anos viajou o mundo em busca de paisagens inóspitas, menos alteradas pela ação humana, povos pouco influenciados pelo nosso modo de vida, animais selvagens, alguns que nós inclusive desconhecemos. O resultado é uma provocação: retornemos.

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Sua exposição tem uma narratividade clara e alguns objetivos expressos desde o primeiro texto da curadora Leila Salgado. Me deterei em apenas dois: o retorno e o deslocamento. O retorno do qual tanto falei faz parte da importância da busca por uma conscientização ambiental. Essa mentalidade tem sido um tema freqüente nos últimos anos e deve ser uma constante em nossos tópicos de discussão, segundo Salgado. Ele acredita que se todos nós como indivíduos pudermos agir e pensar coletivamente sobre o tema, poderemos ainda reverter o rumo da destruição causada por nossa espécie no planeta.

O deslocamento, ao menos no meu ponto de vista, traz para perto de nós realidades muito diferentes, e nos transporta para além diante dessas outras realidades. Por um instante deixamos nosso lugar e nos conectamos com outros olhares, outros mundos dentro do nosso mundo. Ao trazer para seu registro essa beleza da alteridade, do que é distinto de nós, ele também nos transforma em outros. Somos os outros para aqueles povos que sempre vemos como tão distantes, ainda que alguns habitem no mesmo país que o nosso e falem a mesma língua. Diante de suas fotos, vi a mim mesma como num espelho, como se esse espelho também me olhasse. Como se ao reconhecer essa diferença, reconhecesse a mim também. Era o meu olhar como objeto lançado ao mundo e como objeto visível do mundo também. Dois lados de um mesmo espelho.

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A fotografia nos transporta, e, acredito ainda, nos transforma. É um encontro de olhares. O de Salgado e o meu, o meu e os dos outros que ele fotografou. Como máxima de suas exposições, o fotógrafo afirmou em algumas entrevistas que deseja que as pessoas não saiam as mesmas após deixar uma de suas exibições. Comigo esta meta pessoal do artista se cumpriu. Ao sair da exposição, refletia ainda os olhares de outrem, e eu também já era a mesma, mas outra.

Para saber mais:

Sebastião Salgado, Gênesis

Lorenzo Mami; Lilia Schwarcz (org), 8 X Fotografia

Susan Sontag, Diante da dor dos outros

Adauto Novaes (org.), O Olhar

Site do Instituto Terra

Entrevista publicada na Revista Bravo!

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