Colorindo novos mundos

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Contemplemos a geração Z. Grande parte das crianças que vemos, nascidas desde o final de 1993 até o momento atual, nasceram e rapidamente se familiarizaram com computadores, jogos e novas tecnologias. Para aqueles que desconhecem essa classificação de gerações vale a pena fazer uma breve descrição. Após a Segunda Grande Guerra houve uma explosão de natalidade, estes nascidos entre 1946-1960, são os Baby Boomers.  A geração seguinte – nascidos entre 1961-1980 são conhecidos – de acordo com esta categoria – como geração Y. A partir de 1981 a nomenclatura muda para geração X e abarca os nascidos até o ano de 1995.  A geração seguinte – que segue até os dias de hoje – é chamada de geração Z. Dentro desta classificação o critério tecnológico é deveras significativo para a nomenclatura. As nossas crianças geração Z são os nativos digitais. É inegável que as crianças nascidas no final do século passado e no início deste passaram a ter uma relação diferenciada com a tecnologia, se comparados a seus pais. Certamente este não é um sistema rígido, mas é interessante pensar nestas categorias.

A velocidade segue aumentando, a internet é cada vez mais rápida, os computadores são cada vez mais potentes, alguns aparelhos permitem que ao toque de um dedo um mundo se desvele. Não há tempo para meditar ou contemplar. Estamos diante da geração do “agora” e do “mais rápido”. Para grande parte destas crianças todo e qualquer conhecimento que requeira delas longos caminhos e que não lhes forneça respostas imediatas corre o risco de perder com facilidade o sabor. O conhecimento histórico, por exemplo, tornou-se em muitos casos enfadonho e passou a ter uma linguagem tão distinta daquela usada pela História, que muitas vezes fica complicado para que essas crianças lidem com facilidade com dois ritmos tão divergentes.

Recentemente, no entanto, desvelou-se para mim uma possibilidade de encontro entre os ritmos, a partir justamente do cruzamento entre cinema e outras tecnologias, como aplicativos para tabuletas eletrônicas. Entrei em contato com um belíssimo curta-metragem de animação de William Joyce – que trabalhou anteriormente na Pixar em filmes como “Toy Story” – bem como um desdobramento do curta, um livro interativo que mescla o filme, um livro digital, animações diversas, atividades deliciosas e um desenho primoroso.

O filme-livro The Fabulous Flying Books of Mr. Morris Lessmore (Traduzido como Fantásticos Livros voadores de Modesto Máximo)  começa com o senhor Morris Lessmore sentado na varanda de um hotel, cercado de livros, e escrevendo um livro, seu próprio livro, sua própria história. Repentinamente, um furacão o atinge, não só a ele, mas a toda a cidade. Os ventos levam com eles todo o mundo familiar de Lessmore que fica completamente destruído e sem cor. Até mesmo as palavras de seu livro vão embora com o vento. Tudo que ele conhecia e amava se foi e sem saber o que fazer ou por onde começar, Morris começa a caminhar calmamente. Surpreendentemente é neste momento que ele conhece outros livros, os livros voadores. Então um novo livro-companheiro se oferece amavelmente para acompanhá-lo, é Humpty Dumpty, famoso personagem da literatura. Uma vez que decide seguir o livro, ele encontra finalmente um local colorido que parece servir como ninho para aqueles livros voadores. É lá que ele encontra sua cor novamente. Entre os livros – com os quais começa a viver – Lessmore continua a escrever suas linhas, sua própria história, sobre tudo que ele conhece, vê e ama.

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A sensibilidade do diretor está expressa nos detalhes da animação esplendorosa. Além disso o filme não tem falas, o que estimula a criatividade, sobretudo com a trilha sonora delicadamente encaixada em cada pequeno momento do filme. A sutileza das cores é também outra estratégia linda do autor, pessoas ganham cores quando entram em contato com os livros que o Sr. Lessmore lhes fornece. Finalmente, no final de sua jornada com os livros, ao ir embora, o senhor Lessmore lhes deixa um presente que é a sua própria história, escrita gentilmente ao longo de sua trajetória com os livros. Os livros sorriem por perceberem que através da história de Lessmore, escrita em um livro, ele sempre estaria entre eles.

O livro-aplicativo, derivado do filme e escrito e produzido pelo mesmo diretor, convida as crianças a adentrar o mundo eletrônico de maneira desacelerada. Cada página tem uma surpresa, um pequeno detalhe ou uma atividade mais demorada, dois ritmos que se encontram. Através do aplicativo o filme permite-se ser uma porta de entrada para outro mundo. Em menos de vinte minutos o curta convida as crianças a uma jornada de leitura, e de autoria de suas próprias histórias, e através do aplicativo, leva a experiência a outro nível, uma vez que atinge com maior alcance crianças da chamada geração z, até mesmo aquelas que não se interessam por leituras.

Nós, professores de história, não podemos requerer de nossas crianças ou de nossos alunos que sejam pequenos historiadores, mas podemos sim convidá-los a desacelerar, e devemos sim incentivá-los para que sejam autores de suas próprias leituras de mundo, como disse em uma conferência em 2009 o professor e historiador Ilmar Rohloff de Mattos. Podemos usar toda essa curiosidade para que elas desejem ser autônomas em sua escrita, não para que sejam renomados artistas, mas, sobretudo para que desenvolvam um pensamento crítico próprio, para que sejam seletivas e saibam ser seletivas. Acredito que este livro-filme-aplicativo, e outros como ele, podem se transformar em ferramentas incríveis para convidar crianças a adentrarem o mundo da leitura e da escrita – duas habilidades fundamentais para um professor de história.Mr.-Morris-Lessmore

O filme é um hino de amor aos livros, a leitura e a jornada particular de cada indivíduo. É um belo casamento entre ritmos, temporalidades, e saberes. Um amor pelo antigo hábito de ler expresso dentro de uma das mais modernas tecnologias atuais. Ana Maria Machado – escritora brasileira -, ao descrever suas experiências como professora de alfabetização de jovens e adultos em seu livro Contracorrente, conversas sobre política, lembrou de uma fórmula expressa por um educador italiano chamado Rodari e parafraseou-o dizendo: “é indispensável que todos façam uso da palavra e tenham acesso a todos os seus usos, não para que todos sejam artistas, mas para que ninguém seja escravo.” Sei que estamos ainda muito longe de uma democratização destas tecnologias, mas acredito que como professores e historiadores, não é possível desperdiçar nenhuma ferramenta que possa nos ajudar a revelar para nossas crianças e alunos novas possibilidades de leitura do mundo.

(Este texto foi publicado anteriormente pela autora no site da Revista de História da Biblioteca Nacional, na seção Cine-História)

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