Cézanne é o cara

“Quis copiar a natureza e não consegui. Mas fiquei contente comigo próprio, quando descobri, por exemplo, que não é fácil reproduzir o sol, que é necessário dar-lhe expressão de qualquer outra forma… pela cor” – Paul Cézanne

Autorretrato, 1875

Autorretrato, 1875

Numa visita a grandes museus de arte, não é difícil prever o trajeto de boa parte dos brasileiros: Picasso, Leonardo da Vinci e Van Gogh já são praticamente clichês – sem contar Monet e os demais impressionistas, sempre em alta por aqui. Felizmente, nos últimos anos, algumas exposições ajudaram a ampliar um pouco este horizonte, mas não o suficiente para incluir o nome do francês Paul Cézanne (1839-1906).

Confesso que demorei a prestar atenção em Cézanne, mesmo tendo visitado, em Aix-en-Provence, seu ateliê aconchegante e uma exposição que mostrava suas obras lado a lado a algumas de Picasso. Fiquei muito impressionada com o que vi ali, mas, mesmo assim, as pinturas dele continuaram a não me atrair muito. Talvez porque não agradassem tanto o meu gosto, talvez por não apresentarem uma temática que me instigasse…

Desde o ano passado, no entanto, tenho lido e ouvido falar sobre a vida e a obra dele, e digo sem pestanejar: Cézanne é o cara. Além de ter criado inovações que lhe destacam como um dos principais nomes da Arte Moderna e ter influenciado diversos artistas igualmente importantes (como os já mencionados Picasso e Van Gogh), ele ainda tinha uma personalidade fortíssima: preferiu se isolar do mundo a conviver com tipos que não suportava, não se importava com as mudanças que agitavam o mundo da arte, e considerava a pintura simbolista (que, por acaso, ele também influenciou) uma “tolice”.

Imagem antiga da casa usada como ateliê por Cézanne, em Aix-en-Provence

Imagem antiga da casa usada como ateliê por Cézanne, em Aix-en-Provence, na Provença, sul da França

Primeiros anos de trabalho

Apesar de todo o talento, a vida nunca foi fácil para Cézanne. Ele não acreditava no próprio potencial e passou toda a vida tentando provar aos outros e a si mesmo que sabia pintar.

Os críticos da época não facilitaram em nada: seus quadros expostos na primeira e na terceira exposições impressionistas foram praticamente linchados, fosse pela técnica, fosse pela temática que tocava na ferida da sociedade burguesa. Até mesmo o crítico Louis Leroy, inventor da palavra “impressionismo”, recomendou a grávidas que não se aproximassem de “Retrato de Victor Chocquet” (1875): “Esta cabeça de couro mal acabada podia impressioná-las muito, amaldiçoar os seus embriões e contaminá-los com icterícia antes de nascerem”.

Como se não bastassem as críticas, Cézanne não se sentia bem em Paris e não aceitava a pintura puramente visual dos impressionistas. Foi então para a Provença, no sul da França, e lá utilizou a cor e a técnica impressionistas como ponto de partida para uma nova concepção de arte.

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Retrato de Victor Chocquet, 1875

Principais inovações

Para Cézanne, o ato de pintar não reproduz as sensações do artista (como acreditavam os impressionistas), mas as produz. O pintor, portanto, não deve representar a natureza como ela é, nem como a vemos sob o variado impulso dos sentimentos: deve unir a percepção da natureza com a criação artística. Ou seja, para Cézanne a arte deixaria de ser uma duplicação da natureza e chegaria a uma autodeterminação, com suas próprias leis, livre das convenções das academias de arte, e baseada na consciência do próprio pintor.

A partir daí, ele desenvolveu uma técnica própria, em que cada mancha de cor correspondia a outra e completava-se, formando uma unidade estruturada. Aos poucos, ele foi transformando a cor numa matéria sólida, por meio da qual se construía o mundo dos objetos na tela. Ele passou a criar toda a composição (forma, cor, espaço, superfície, volume e luz) a partir da cor. Esta foi sua principal inovação técnica, chamada ‘modulação da cor’.

Há diversas inovações menores no trabalho de Cézanne que também ajudaram a romper com o estilo de pintura feito pelos demais artistas ocidentais. Não é difícil perceber que ele foi aos poucos removendo as convenções das academias de arte (como o ‘ponto de fuga’, que dava uma maior sensação de profundidade, como se pudéssemos atravessar a tela até um ponto na linha do horizonte), e se permitindo ter uma liberdade inexistente até então.

Uma tela um pouco mais “tradicional” e que permite entender parte dessas inovações é “Os jogadores de cartas”:

Os jogadores de cartas, 1894-95

Os jogadores de cartas, 1894-95

Ainda que dê alguma sensação de profundidade, a tela não tem ‘ponto de fuga’. Muito pelo contrário, mal se distingue o fundo, já que, utilizando-se da técnica da ‘modulação da cor’ (explicada acima), ele espalhou os mesmos tons de cor no fundo, sobre a mesa e os personagens, compondo uma unidade. Reparem como não é possível dizer a cor exata dos paletós, pois há verdes, vermelhos, amarelos…

O papel das cores na tela é relacionar os elementos: Cézanne constrói com as cores. São elas, por exemplo, que iluminam a composição, com os tons claros do cachimbo, das cartas, e até do reflexo da garrafa sobre a mesa. Não há nenhum tipo de iluminação que possa parecer “natural”, como a luz de uma janela ou de uma vela – recurso tão comum no trabalho de artistas de períodos anteriores.

São tantas as inovações interessantes nesta e em outras obras de Cézanne, que eu poderia escrever muito mais do que vocês provavelmente estariam dispostos a ler. Mas para ter uma ideia do que o trabalho dele representou para a arte, basta lembrar que na segunda metade do século XIX o Impressionismo era uma das principais vanguardas, e que, antes disso, as pinturas seguiam um padrão bem mais tradicional, com nomes como Eugène Delacroix e Théodore Rousseau. Com isto em mente, deixo vocês com mais algumas obras, e indicações de leitura.

Para saber mais:

Cézanne – Hajo Düchting

Arte Moderna – Giulio Carlo Argan

A História da Arte – E.H. Gombrich

Banhista, 1885–1887

Banhista, 1885–1887

Les Grandes baigneuses, 1906

As grandes banhistas, 1898-1905

A casa do enforcado, 1873

A casa do enforcado, 1873

Afternoon In Naples With A Black Servant, 1875

Afternoon In Naples With A Black Servant, 1875

L'Estaque, 1883–1885

L’Estaque, 1883–1885

Monte Sainte-Victoire, 1904

Monte Sainte-Victoire, 1904

Mulher com cafeteira, 1890-95

Mulher com cafeteira, 1890-95

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4 Respostas para “Cézanne é o cara

  1. Obrigada, Clara! Eu até tinha me prolongado mais, mas acabei tirando uma parte, já que na internet as pessoas não costumam ler textos muito longos… Eu poderia ter deixado um pouco mais…
    O ateliê é super aconchegante, tem um jardim cheio de árvores em volta. E Aix-en-Provence é linda. Quando fui tinha uma exposição enorme sobre Cézanne e Picasso em cartaz no museu da cidade. Dei a maior sorte :)

  2. Cris, adorei o texto!
    Gostei principalmente da parte em que você analisa o “Jogadores de Cartas”. Por mim, você podia ter se prolongado ainda mais na sua análise, e estendido-a aos outros quadros.
    Visitei a página do ateliê, e deu muita vontade de visitá-lo. Invejinha. Por que os ateliês dos artistas são sempre tão legais?

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