Cartier-Bresson e seu instante decisivo

Henri_Cartier-Bresson

Não há nada no mundo que não possua um instante decisivo”

(Henri Cartier Bresson)

Talvez a crescente popularização da fotografia, que advém também dos avanços tecnológicos, naturalize um pouco a história e a trajetória da fotografia. Se é verdade que hoje qualquer pessoa pode fotografar – o que não necessariamente significa que qualquer pessoa é um fotógrafo -, também é verdade que para cada clique existe um longo caminho de descobertas que formam o que hoje chamamos de fotografia.

Aplicativos de telefone popularizaram não apenas a fotografia e seu compartilhamento, bem como as edições que cada foto pode receber. A simples aplicação de um filtro pré-definido pode transformar uma foto comum em algo muito mais atraente. Eu, como estudante de fotografia, nada tenho contra essa popularização, não faço parte do grupo mais radical que acredita em um conceito antigo de fotógrafo – grupo que por vezes parece ver esse ofício como um métier fechado, reservado apenas para fotógrafos profissionais e seus assistentes, como um ‘segredo’ passado de pai para filho. Todavia, não são apenas a edição instantânea e a fotografia que se popularizam, mas a ânsia de mostrar, de compartilhar sua própria visão de mundo, o seu olhar para com o cenário. Um café, uma mesa de bar, os pombos da praça, todos parecem querer mostrar o que vêem e sua maneira de ver.

Sabemos que o olhar é profundamente subjetivo, pois depende de uma bagagem completamente pessoal, ainda que possa ser compartilhada. Por isso eu acredito que cada fotografia é profundamente singular, e mesmo a mais impessoal – se é que isso é possível – nos conta uma história: em um primeiro movimento nos conta uma história dela mesma, da fotografia, como parte de um movimento maior e mais antigo; e em um segundo movimento (que talvez seja nossa primeira percepção) ela nos conta a história do olho por trás da câmera. Se é verdade que não me aproximo dos radicais que se enfurecem com a disseminação de ferramentas como Instagram, considero sempre perigosa a naturalização. Portanto, escrevo esse texto em um movimento de desnaturalização. Não farei isso pela estratégia que acredito que seria a mais evidente – como a de contar uma síntese da história da fotografia – pois também acredito que isso seria demasiadamente enfadonho. Todavia, elegi um caminho ainda mais clichê, escolhi falar de um fotógrafo em especial que é realmente muito famoso: Henri Cartier-Bresson.

Minha proposta é simples: pensar em como a fotografia acontecia em um outro momento, para refletirmos sobre o que ela representa para nós hoje.

Cartier-Bresson nasceu no início do século em 1908, na França. Estudou pintura entre 1927 e 1928, mas só começou a se dedicar à fotografia em 1931. Após a Segunda Grande Guerra – na qual participou primeiramente como parte do contigente francês, e, após sua captura pelo exército alemão, como parte da resistência -, em 1947, fundou a Magnum Photos juntamente com outros fotógrafos como Robert Capa e começou a viajar pelo mundo fotografando.

SPAIN. Andalucia. Seville. 1933.

CHINA. Beijing. December 1948. Uma mãe segura seu bebê esperando que o seu cartaz lhe traga alguma ajuda. Uma refugiada na cidade grande. Ela havia escrito: “Eu me chamo sol. Meu marido morreu de doença. Somos estrangeiras nessa cidade. Não temos meios de existir. Eu sou obrigada a pedir caridade aqueles que tem bom coração”.

Henri Cartier-Bresson usava uma Leica. Em geral, apenas uma câmera e apenas uma lente 50mm. Isso significa uma lente fixa, nada dos zooms com os quais estamos acostumados até mesmo nas mais simples das câmeras. Em geral a 50mm é a lente mais próxima ao que vemos, de modo que seu enquadramento é muito parecido com o do olho humano. Pierre Assouline, biógrafo do fotógrafo, ressalta isso – sua escolha de lente – justamente pela mínima distorção que a 50mm proporciona: era ela que melhor se encaixava na proposta fotográfica de Cartier-Bresson.

O fotógrafo ficou conhecido por seu “instante decisivo”. Ele acreditava que cada situação tinha um momento apropriado que lhe revelava a forma, do mesmo modo que havia um momento preciso para revelar o conteúdo. Deste modo, o instante decisivo seria esse entrecruzamento entre os dois. Imagens célebres como a do pulo sob a água ou a da bicicleta que cruza uma rua com velocidade são demonstrativas do tipo de instante no qual ele acredita.

FRANCE. 1932. Paris. Place de l’Europe. Gare Saint Lazare.

FRANCE. 1932. The Var department. Hyères.

Talvez nem todos gostemos de seu enquadramento ou da aparente ausência de foco – de minha parte, adoro o movimento -, mas essas duas fotos são exemplares do que Alberto Tassinari, filósofo e crítico de arte, chama de colagem. Acontecimentos independentes reunidos pela Leica de Henri Cartier Bresson. Tassinari fala em instante radiante ao descrever a obra de Cartier-Bresson explicitando justamente a fecundidade de sua obra, e chama atenção ainda para a presença da câmera como parte do momento inicial do desencademento da série de eventos que se seguem. No caso das duas imagens acima, é também a união entre um objeto imóvel – a câmera – e o movimento da vida e das pessoas, mais uma colagem.

Cartier-Bresson é ainda louvado em diversos meios artísticos. Alguns autores acreditam que a fotografia não mudou muito deste então, exceto em seu caráter tecnológico, mas eu considero que essa análise é equivocada. As mudanças tecnológicas da fotografia têm um impacto direto também na experimentação da mesma. Este fotógrafo – que fotografou ao longo do século XX – não via o que fotografava exceto com seus olhos, o seu instante só lhe era revelado depois do filme processado. Ver o que se fotografa é uma mudança considerável na maneira como lidamos com a câmera e com o nosso olhar para com o mundo. Talvez pensemos menos ao tirar uma foto, talvez contemplemos menos. Temos pouco tempo. Não pretendo louvar uma época pretérita, porém, quero demonstrar como eu acredito que a tecnologia transforma e muito a maneira como fotografamos. Se ao fotografarmos – fotógrafos ou não –  não pensamos mais com essa ‘lentidão’, as belas fotos de Cartier-Bresson nos permitem lembrar que nem sempre foi assim.

O fotógrafo Eric Kim escreveu um post pensando em como Cartier-Bresson e suas fotos nos ensinam hoje princípios fundamentais sobre fotografia de rua. Damos início a uma nova colagem, com duas temporalidades, passado e presente. Como o olhar de Cartier-Bresson diante da velocidade e da paciência de esperar pelo instante decisivo pode nos inspirar em nossa aceleração hoje?

“Para mim a camera é um livro de rascunhos, um instrumento de intuição e espontaneidade, mestre do instante no qual, em termos visuais, questiona e decide simultaneamente. Com o intuito de ‘dar significado’ ao mundo, alguém precisa se sentir envolvido com o que enquadra através da lente. Esta atitude requer concentração, uma disciplina da mente, sensibilidade, e um senso de geometria – e através desta grande economia de meios que se pode chegar a simplicidade da expressão” (Henri Cartier-Bresson)

 

INDIA. Punjab. Kurukshetra. Um campo de refugiados para 300.000 pessoas. Outono 1947.

*Fotos e informações das mesmas retiradas do site da Magnum Photos.

Para Saber mais:

Pierre Assouline, Henri Cartier Bresson: A biography

Alberto Tassinari. “O instante radiante” in: MAMMI, L. SCHWARCZ, L. M. (org.) Oito Vezes Fotografia.

Brian Campbell, World Photography

Site da Fundation Henri Cartier Bresson

Site da Magnum Photos

Eric Kim Photography

INDIA. 1950. Tamil Nadu. Madura.

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Uma resposta para “Cartier-Bresson e seu instante decisivo

  1. Como era bom tirar uma foto na era de 50, você batia a foto e levava o filme para ser revelado e depois feita a foto, a gente ficava ansioso para ver o resultado, se a foto ficara boa ou não, imagino como Cartier-Bresson também ficava na expectativa de ver o resultado.

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