Histórias cruzadas, entrelaçadas e misturadas

thehelp03

LONDRES – Há pouco tempo terminei de ler “The Help” (“A Resposta”), de Katherine Stockett, livro que deu origem ao filme de mesmo nome em inglês e que no Brasil recebeu o título de “Histórias Cruzadas”. Apesar de o enredo se passar no sul dos Estados Unidos dos anos 1960, a forma com que a autora retrata a imagem da empregada doméstica fiel, carinhosa, meio mãe – e sim, negra – me parece bastante atual, especialmente se pensarmos no Brasil.

Mais de um mês após a aprovação do controverso “PEC das domésticas”, pouca coisa mudou na prática em termos de direitos trabalhistas. Mas se pensarmos em longo prazo podemos enxergar algumas mudanças, algumas sutis e outras mais acentuadas, em relação às mulheres que têm como trabalho cuidar da casa e das crianças de outras famílias.

Quando meu pai era pequeno, a casa dele, que era grande e na qual moravam oito pessoas, tinha seis empregadas. Nem todas dormiam em casa, é verdade, mas o fato de tantas pessoas trabalharem para uma família de classe média alta em Salvador era, na época, era natural. Claro que existem exceções e que diferenças de classes e regiões se aplicam, mas algumas crianças dessa geração (nascidas nas décadas de 1950 a 1970) cresceram sem precisar saber sobre trabalho doméstico, como fazer a própria cama, faxina ou cozinhar.

Hoje em dia não é mais tão comum que empregadas domésticas durmam no trabalho; muitas já não trabalham na mesma casa todos os dias e outras tantas já estão atuando de forma mais distante das famílias, como diaristas. Isso, a meu ver, leva a duas consequências: o entendimento da empregada doméstica como uma profissional de fato, e a outra que as crianças das próximas gerações precisarão ser mais independentes.

O que me leva a um questionamento: será que a minha geração foi a última a crescer com empregadas e babás “full-time”?

Em minha posição privilegiada de criança de classe média em Salvador, tive a sorte de conviver com empregadas domésticas que em muito contribuíram para minha formação. Assim como Eugenia (personagem do livro mencionado acima), eu tive uma relação muito forte com minha babá, e posso dizer com toda certeza que aprendi com ela coisas que jamais teria aprendido com minha mãe.

Nosso relacionamento era de muita cumplicidade: ela me tirava do castigo quando meus pais saíam de casa, me dava mais um pedaço de bolo quando não tinha ninguém olhando e me defendia mesmo quando eu merecia umas palmadas. Do meu lado, eu discutia e ensinava a ela tudo que aprendia na escola. Eu brincava de professora e ela se esforçava de verdade para aprender, interessada em adicionar conhecimento formal à sabedoria popular na qual ela já era formada.

Eu demorei muito para compreender diferenças sociais e para entender o que era o racismo pungente na minha cidade natal. Quando eu visitei a casa da minha empregada pela primeira vez, depois de muito insistir para conseguir permissão, achei que minha mãe não queria me deixar ir porque na casa dela tinha refrigerante, coisa que eu era proibida de tomar. Não passou pela minha cabeça que era porque minha babá morava em uma favela, em uma área que na época era distante do centro da cidade e com alto índice de criminalidade. Para mim, o que realmente importava era poder correr descalça com as crianças do bairro, brincar de elástico até os pés doerem e chupar geladinho (ou sacolé) pela metade do preço que eu pagava no meu bairro.

Cena do filme "The Help" ou "Histórias Cruzadas"

Cena do filme “The Help” ou “Histórias Cruzadas”

Minha adolescência foi marcada por brigas com meus pais e por isso acredito que a cumplicidade com minha babá, que então já não tinha esse título,  (ainda que seu comprometimento em cuidar de mim, me defender e me mimar não tenha mudado), aumentou. Foi a ela que eu contei primeiro quando perdi a virgindade, foi a ela que pedi conselhos quando brigava com meus pais, foi no colo dela que eu chorei quando terminei meu primeiro namoro. Minha família era e continua sendo muito presente em minha vida e sem dúvida meus pais e meus irmãs participaram de cada um desses episódios, mas nenhum deles vivenciou todos e da forma tão intensa que minha… Amiga? Confidente? Terapeuta?

Quando saí de casa para fazer faculdade, me deparei pela primeira vez na vida com tarefas domésticas e percebi que não, as coisas não se limpam sozinhas, cozinhar não é tão fácil como ela fazia parecer e que existe sim uma forma certa de lavar roupa, senão elas mancham e encolhem. Minha completa ignorância sobre o assunto me assustou, e mais uma vez foi com essa professora que pude contar para pedir mais conselhos. Passamos alguns bons minutos penduradas no telefone para que eu aprendesse a passar roupa sem queimar a casa.

Hoje em dia, morando fora do Brasil e dividindo apartamento (ou flat) com pessoas de diferentes partes do mundo, posso dizer que sou uma pessoa independente. Sei cozinhar o básico, limpo a casa sem frescura, lavo e passo minhas roupas mesmo detestando essas últimas tarefas.

Apesar de gostar de ser completamente responsável por minha vida, encaro minha volta para casa como um tipo de férias. Não por ter alguém fazendo as coisas por mim – eu até prefiro fazer eu mesma – mas por ter aquela amiga, professora, terapeuta, confidente por perto, me mimando com aquela feijoada maravilhosa no almoço, me defendendo quando eu começo a reclamar da vida, escutando tudo que eu falo com toda a atenção do mundo… Enfim, me querendo bem.

Por um lado fico feliz por essa nova geração que vai aprender desde o início a ser independente. Por outro, acho que essas crianças vão perder uma conexão maravilhosa com pessoas que talvez elas não tenham outras oportunidades de conhecer.

Anúncios

2 Respostas para “Histórias cruzadas, entrelaçadas e misturadas

  1. Obrigada Juliana, pela leitura do seu texto, muitas analises interessantes, e parabéns pela pessoa firme e resolvida que você vem se formando a cada dia, a cada nova experiência. Sua mãe é uma grande mãe, de coração imenso, onde coube até a minha filha Isabel, mas a homenagem a sua convivência e cumplicidade com a babá as vésperas do dia das mães, foi um gesto a altura da integridade da sua beleza. Um beijo e saudades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s