Retrato da alma

Imagine um casarão sombrio, com paredes descascando, chão empoeirado, espelhos e lençóis espalhados por todos os lados. No interior, às vezes uma ou duas mulheres seminuas, na faixa dos vinte anos, posicionam-se junto à fotógrafa em frente a uma câmera ainda experimental. A ambientação gótica e a sensualidade feminina ficam completas com a adição de sapatilhas, luvas antigas, animais empalhados e a longa exposição da câmera à luz, criando figuras fantasmagóricas, quase sempre em preto e branco.

As fotografias da norte-americana Francesca Woodman (1958-1981) vêm ganhando destaque nos últimos anos em diversas mostras, principalmente nos Estados Unidos. Em 2012, depois de uma grande retrospectiva no San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA) e no Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova York, ela veio parar no Brasil. A seleção de 27 imagens, produzidas de 1972 a 1980, foi exposta na Galeria Mendes Wood, em São Paulo.

A ideia de trazer o trabalho de Francesca partiu de um dos donos da galeria e curador da exposição, o norte-americano Matthew Wood. Ele ficou encantado com a retrospectiva organizada pelo SFMOMA, que também rendeu um dos catálogos mais completos da obra da fotógrafa, com 180 imagens. “Francesca começou a fazer fotos de qualidade aos 14 anos. Seus autorretratos são incríveis. Ela influenciou uma geração inteira de fotógrafos nos Estados Unidos, mas é uma figura um pouco misteriosa. Antes dessas grandes mostras organizadas recentemente, era difícil ver o trabalho dela reunido, pois está dividido em muitos acervos em instituições como o The Metropolitan Museum of Art, o The Museum of Modern Art e o The Whitney Museum of American Art, em Nova York”, conta Wood.

"Self-deceit #1" - 1978

“Self-deceit #1”, 1978

A obra de Francesca soma cerca de 800 imagens – a maioria produzida como estudante na Rhode Island School of Design (RISD), de 1975 a 1978. A produção foi interrompida precocemente: aos 22 anos, ela se jogou de um prédio em Nova York. Poucos dias antes, havia sido publicado seu único livro em vida, Some Disordered Interior Geometries (1981).

Até essa época, o trabalho de Francesca ainda era desconhecido, mesmo já tendo participado de algumas mostras coletivas. A primeira grande exposição de sua obra aconteceu cinco anos depois, em 1986, e viajou por diversos museus universitários nos Estados Unidos. Foi aí que as fotografias passaram a chamar grande atenção, o que não era comum para uma artista tão nova e obscura.

Untitled, 1976

Untitled, 1976

Francesca se interessou pela fotografia num momento em que os cursos universitários sobre o tema viviam uma verdadeira explosão nos Estados Unidos. Foi no fim dos anos 1960 que a fotografia começou a ingressar nos departamentos de Arte. Antes, ela basicamente fazia parte dos cursos de Jornalismo e Design.

A influência da família também foi importante na carreira da artista. Seu pai, o pintor, ceramista e fotógrafo George Woodman, foi quem lhe deu a primeira câmera – ainda aos 13 anos – e era a quem Francesca recorria em busca de opiniões sinceras sobre sua arte. A mãe Betty e o irmão Charles também são artistas, cada um com seu estilo, mas nenhum com a fama de Francesca.

Talvez o fim trágico e a precocidade do talento de Francesca tenham ajudado a elevar seu reconhecimento. Ao olhar as fotografias, muitas perguntas vêm em mente. O que se passava na cabeça dessa menina – não mais uma criança inocente, nem ainda uma mulher madura? Onde ela teria chegado se continuasse a fotografar? Quais teriam sido suas inspirações para fazer retratos tão pessoais? Estas e outras questões seguem em debate, mas poucas terão respostas definitivas.

(Texto adaptado, publicado anteriormente pela autora no site da Revista de História da Biblioteca Nacional)

Saiba mais:

Francesca Woodman –  Keller, Corey. D.A.P./SFMOMA

Sem título, 1976

Sem título, 1976

Untitled, 1972-1975

Untitled, 1972-1975

Untitled, 1978

Untitled, 1978

Untitled, 1975-1978

Untitled, 1975-1978

Untitled, 1977-78

Untitled, 1977-78

Space2 - 1976

“Space 2”, 1976

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4 Respostas para “Retrato da alma

  1. Between me and my husband we’ve owned more over the years than I can count, including Sansas, iRivers, iPods classic touch, the Ibiza Rhapsody, etc. But, the last few years I’ve settled down to one line of players. Why? Because I was happy to discover how well-designed and fun to use the underappreciated and widely mocked Zunes are.

  2. Adorei o texto, Cris, interessantíssimo,e as fotos são muito marcantes! Fiquei curiosa com o que a própria fotógrafa tinha a dizer sobre o trabalho dela, você sabe de algum lugar onde eu possa ler sobre isso?

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