Decifrando Giacometti

[POR ROBERTO ORMOND, Autor Convidado]

Fazia frio naquela quarta-feira. Era o primeiro dia da exposição Giacometti, e como a chuva assusta os cariocas, parti para o MAM na esperança de uma visita solitária.

Mas que nada, o lugar estava cheio, repleto de crianças, estudantes de férias, turistas alemãs, francesas… Ah, as francesas! Tinha muita gente por lá. Na chegada, o cafezinho e a passagem pela loja de design são obrigatórios. É impossível entrar no MAM sem tomar um café. Mais uma vez vi o banco Quito de Julia Krantz, que ainda vou comprar. Uma reunião de chefs deixava o ambiente com ar insólito.

Doze Reais mais pobre, a foto de Émile Savitry ao lado da bilheteria já me fazia dar razão ao Sartre do “Em busca do Absoluto”. Giacometti anula a escala do observador como referência para a escultura. As figuras alongadas criam universos próprios a seu redor. Não estão no espaço – determinam o espaço, pois estão sempre distantes. Como isso era possível eu ainda ignorava.

“Mulher deitada sonhando”, de 1929, é obra prima do Surrealismo. Vi-a pela primeira vez no livro “Escultura Moderna”, de Herbert Read, e nunca imaginei que estaria ali, logo ao lado da escada, num dia que o museu desfrutava ares nórdicos. Dezesseis graus para quem é do Rio é frio, muito frio mesmo, e o céu nublado destacava a iluminação interna sobre a peça – um milagre em que o excesso de luz é o problema. “Mulher deitada” são duas ondas trespassadas por cilindros, quase a mistura do “Urutu” de Tarsila do Amaral com a chaise longue de Corbusier, Jeanneret e Perriand. Pouco, ante o que estava por vir.

"Mulher deitada sonhando", 1929

“Mulher deitada sonhando”

Em frente à série de bustos femininos, uma senhorita amamentava. Quando criança, eu mamava assistindo Balão Mágico, nunca Giacomettis. Comecei a sentir um estranhamento, os olhos vagavam sem foco, questionamentos sobrevinham, fui tomado por ondas de calor, era a… Não! Não era a Náusea. Acho que minha mãe e Sartre estavam certos quanto à TV e as esculturas, mas não sou Antoine Roquentin; não estava em Bouville, mas no MAM, no Rio de Janeiro. Coisas da infância.

Mais adiante, em “Quatro figurinhas sobre um pedestal” (1950-65), o embasamento invertia a lógica da obra e determinava a escala dos corpos que o encimavam. Era como se os seres minúsculos levassem uma existência paralela, imersos numa atividade relacionada com o que estava sob seus pés – atividade de outro mundo, importante para eles, desconhecida para nós, gigantes frente as figurinhas, pequenos ante o pedestal.

"Quatro figurinhas sobre pedestal"

“Quatro figurinhas sobre pedestal”

“Composição dita cubista n.2” (1927) era um intrincado de formas. Seria imprudência ver ecos do Futurismo ali ? Acho que não. Havia um pouco de Léger e a estética das máquinas sobressaía, mas quem quisesse podia chamar de surrealismo geométrico também. De outra tendência, “Le Couple” (1927) deixava claro o interesse do artista pela escultura primitiva e pré-histórica. Mas ao lado, suas telas – que crime confessar – não chamavam muita atenção. Riscadas, cinzentas como negativos fotográficos, imergiam o espectador numa atmosfera turva, onde não havia som e o campo de visão estava limitado.

"Composição, dita cubista"

“Composição, dita cubista No.2”

"Le couple"

“Le couple”

De fins da década de 1930, “Figurinha Minúscula” era pouco menor que um prego e, envolta pela caixa de exposição, ganhava dimensões de um gigantesco monumento numa esplanada. Vendo-a de frente, na diagonal, e depois me abaixando para encará-la à altura dos olhos, tudo começou a fazer sentido. A relação da obra com o volume da caixa estabelecia uma escala. Minha relação com a imagem dentro dessa escala me deixava menor que a esculturinha, ainda que a pudesse segurar com a ponta dos dedos. A caixa protetora, uma simples caixa plástica, tornava a arte de Giacometti, toda ela, inteligível a qualquer um que, como eu, se agachasse para desvendar esse mistério que passaria incólume.

"Figurinha minúscula"

“Figurinha minúscula”

Bem em frente estava “O Homem que anda”, de 1960. Para onde ia? Talvez para onde fossem as “Quatro figurinhas sobre um pedestal”. Não pude descobrir. Subi a escada e uma “Grande Mulher”, de 1950, tornou-se pequena para mim e grande para o museu. À essa altura, eu era quase uma escultura de Giacometti.

"Homem que anda"

“Homem que anda”

O destaque da mostra foi a “Grande cabeça alongada”, de 1954. A expectativa de se encontrar um rosto a partir da visão de perfil era desfeita pela quase ausência de volume da cabeça. Na verdade, a obra era formada por dois perfis unidos, praticamente sem fronte, e o segredo para se apreciar era fazer o trajeto ao redor, percorrendo verticalmente com o olhar o mínimo de rosto que havia para ser visto. Dessa forma percebia-se a mudança de volume do objeto diante dos olhos. A experiência foi fantástica e subverteu minha ideia da escultura enquanto arte dos volumes, inserindo na equação sua própria ausência e me levando a compreender melhor o impacto da arte primitiva sobre a moderna.

"Grande cabeça alongada"

Montagem feita com “Grande cabeça alongada”

Na saída, o cafezinho e a passagem pela loja de design são obrigatórios… É impossível sair do MAM sem tomar um café. Vi novamente o banco Quito de Julia Krantz. Crianças, estudantes de férias, turistas alemãs e francesas (ah, as francesas!) ficavam para trás. A reunião de chefs havia terminado. Por algum motivo, me vinha à cabeça o David de Bernini e o espaço que ele estabelece a seu redor. E as figuras de Giacometti, como conseguiam trabalhar também esses espaços? Ora, o que Giacometti fez foi partir do princípio de que o espaço só é compreensível por ser ocupado por algo que o determine. E o tamanho de um objeto é sempre medido a partir de sua relação com outros. Daí o jogo de volumes, escalas e proporções. Daí a escolha por figuras que, de tão pequenas ou alongadas, são sempre vistas como um todo e, ainda que próximas, interpretadas como se estivessem distantes. Daí o mistério que envolve essas figuras, que reconhecemos como nossos semelhantes, mas cuja natureza será para nós um eterno enigma.

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2 Respostas para “Decifrando Giacometti

  1. Agora entendi o porquê daquelas figuras humanas tão esticadas. O Giacometti explora a percepção da distância, do volume e do espaço na escultura. A cabeça que só tem perfil é show. Curti muito! Pena que essa arte anda pouco falada. Pedro Arantes, RJ

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