O melhor amigo do artista

Corre pra lá, pra cá, rouba os restos do almoço, arruma confusão com outros animais… À primeira vista, Lump é um salsicha (ou dachshund, para os mais formais) como qualquer outro: vivaz e de personalidade forte. No entanto, ele tem um diferencial de dar inveja a qualquer um, seja cão ou humano: está eternizado em quinze telas de ninguém menos que Pablo Picasso.

Olha ele ali embaixo, à direita, participando de uma das interpretações de Picasso para o quadro Las Meninas (1656), de Velázquez. Não há nem sombra do cachorro da raça mastim, pintado no original para a família real espanhola.

No total, Picasso fez 44 telas para esta série, entre agosto e dezembro de 1957. Lump aparece em 15 delas, hoje expostas no Museo Picasso, em Barcelona. Em todas, ficam claras as variações de elementos da composição, como os próprios personagens, a luz e as cores. No livro “L’atelier de Picasso” (Jaume Sabartés, 1952), o artista conta que tentou fazer as telas de sua própria maneira, esquecendo Velázquez: “De pouco em pouco, eu pintaria Meninas que seriam detestáveis a um puro copista – elas não seriam o que ele acreditava ter visto na tela de Velázquez, mas seriam minhas Meninas”.

Uma das versões de Las Meninas, de Picasso, feita em 1957.

Uma das versões de Las Meninas, de Picasso, feita em 1957

Mas afinal, o que aquele baixinho espichado está fazendo entre as Meninas de Picasso? A resposta para esta pergunta está no livro “Picasso and Lump: A Dachshund’s Odyssey”, publicado pelo fotógrafo David Douglas Duncan há relativamente pouco tempo, em 2006.

Duncan foi um dos poucos a ter o privilégio de conviver com o artista em sua mansão em Cannes, a Villa La Californie. Ali Picasso gostava de trabalhar em paz, e pouco se envolvia com os animais, como o boxer Yan e a cabra Esmeralda. Mas algo mudou em 1957, quando Duncan chegou com seu pequeno salsicha…

Aparentemente, foi amor à primeira vista. Lump deixou claro que havia escolhido sua nova casa, e Picasso, surpreendentemente, pegou o novo amigo no colo, fez alguns carinhos e o deixou terminar de comer seu almoço – no mesmo prato – pouco depois que se conheceram. No mesmo dia, Picasso também fez o primeiro retrato de Lump, pintado em um prato, com direito a dedicatória e tudo.

Na dedicatória lê-se: "Pour Lump. Picasso. Cannes, 19.4.57"

Na dedicatória lê-se: “Pour Lump. Picasso. Cannes, 19.4.57”

Daí em diante, ele não era Lump, mas Lumpito. Passou a acompanhar Picasso pela casa, inclusive dentro do ateliê (algo antes impensável), e se tornou uma figura onipresente.

De vez em quando, segundo Duncan, ele jogava sua pedra favorita no chão, fazendo um barulho enorme, para que Picasso, então, a chutasse para longe. Outro brinquedo foi um coelhinho, feito de papel cartão pelo próprio Picasso. Duncan foi rápido o suficiente para registrar o momento, antes que Lumpito destruisse a pequena “escultura”. (Quanto será que ela valeria hoje?)

Picasso e o brinquedo temporário de Lump: um coelhinho feito pelo próprio artista.

Picasso e o brinquedo temporário de Lump

As fotos de Duncan são excelentes, e mostram Picasso com os filhos e a companheira Jacqueline em momentos de descontração. Não faltam registros de afeto com o pequeno Lumpito. Duncan afirma: “Quando Picasso olhava para Lump, uma doce gentileza brilhava em seus olhos, mas fugaz, tive a sorte de capturá-la com uma câmera”.

A história, no entanto, não foi tão feliz como o fotógrafo faz parecer no fim do livro. Em 1963, Lump sofria com um problema na coluna, comum aos salsichas, e estava sendo tratado em Cannes. Após ouvir que ele não poderia ser curado, Duncan o fez passar por outro tratamento em Stuttgart, na Alemanha, o que permitiu a Lump viver por mais uma década.

Em entrevista ao New York Times, o fotógrafo garantiu que o cão não foi negligenciado em nenhum momento: “Ele teria adoecido de qualquer forma. Lump tinha uma vida absolutamente mimada. Picasso disse uma vez: ‘Lump, ele não é um cachorro, ele não é um homenzinho, ele é algo além’.”

Talvez por coincidência, ou talvez por “algo além”, em abril de 1973 os destinos de Lump e Picasso se cruzaram mais uma vez. Apenas uma semana após a morte do cão, o artista também se foi. Mas felizmente para entusiastas da arte de Picasso e para os amantes de baixinhos como Lump, esta história permanece registrada em belas imagens.

passeando atelier comendo no prato comendo na mao

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Uma resposta para “O melhor amigo do artista

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